Henrique Sim-Sim. “É licenciado em Engenharia Zootécnica e Pós-Graduado em Relações Internacionais e Estudos Europeus. Concluiu o Diploma de Especialização em Cooperação para o Desenvolvimento e também o INSEAD Social Entrepreneurship Programme. Foi Vice-Presidente da DECO Alentejo, é Presidente da Alentejo de Excelência e membro do Conselho Fiscal da ESLIDER-PORTUGAL – Rede Nacional de Empreendedores Sociais e Líderes da Sociedade Civil. Trabalhou na Associação Terras Dentro, na Fundação Eugénio de Almeida e presentemente na Estrutura de Missão Portugal Inovação Social. Pai de três filhos, é fortemente comprometido com dinâmicas de empreendedorismo, inovação social e desenvolvimento regional.”

Antes de mais, uma declaração de interesses, ou, como é usual dizer agora, um disclaimer. Aqui vai: sou um apaixonado por Espanha e, mais particularmente, pela Extremadura espanhola.

Dito isto, leia esta minha crónica com a necessária subjetividade, sabendo de antemão que vejo nos Extremenhos um povo irmão, que apesar das óbvias diferenças sociológicas e culturais, em muito se assemelha a nós, Alentejanos – pela sua resiliência e paciência, pela simplicidade e perseverança, e pelo infindável, e inatacável, amor à sua terra.

Por diversas razões – profissionais e associativas – tenho trabalhado e cooperado com várias instituições extremenhas, ganhando a sua confiança, amizade e mesmo carinho, o que me permite dizer-lhes, nos dias bons, que são nuestros hermanos, e, nos dias menos bons (quando, p.e., o meu Benfica perde com algum clube espanhol, o que raramente acontece!), que de Espanha nem bom vento nem bom casamento. É também assim o processo de cooperação, no qual a confiança gerada entre pessoas, e instituições, se torna sem dúvida um dos fatores chave de sucesso.

Para este processo de mútua aproximação cultural, social e económica entre Alentejanos e Extremenhos, foi decisiva a entrada de Portugal e Espanha na CEE, hoje União Europeia, e a Politica de Coesão Territorial, que proporcionou a partir dos anos 90 instrumentos de financiamento para a cooperação transfronteiriça, nomeadamente o INTERREG e o POCTEP.

No Alentejo, este processo tem sido liderado pela CCDRA, através da Divisão de Cooperação Inter-Regional, a qual tem desenvolvido um consistente trabalho ao nível da promoção de iniciativas de cooperação, de coordenação e de acompanhamento dos instrumentos de financiamento, de acordo com sua missão. Por outro lado, a Junta da Extremadura, com autonomia própria, tem tido a possibilidade de apostar num plano estratégico mais abrangente e efetivo de aproximação e cooperação com o Alentejo.

Para a Extremadura, a cooperação com o Alentejo tem sido um ponto central da sua política de desenvolvimento e coesão territorial, tendo para o efeito estabelecido, em 2009, um instrumento político e operativo que congregou toda uma visão estratégica de cooperação transfronteiriça, o denominado Plan Portugal, com o objetivo de aumentar exponencialmente a aprendizagem da língua portuguesa, reforçar a cooperação transfronteiriça, aumentar a visibilidade desta região em Portugal e facilitar as relações empresariais.

Em 2014, foi relançada uma versão revista e atualizada do Plan Portugal. Esta nova edição é mais inclusiva, valorizando sobretudo o papel que a sociedade civil extremenha possa ter no proceso de cooperação, consubstanciando-se em 4 eixos temáticos: Território, Competividade, Cidadania e Cooperação.

Para a Junta da Extremadura, apesar das diferenças político-partidárias entre PP e PSOE – e do consequente maior ou menor dispêndio de energia, tempo e dinheiro -, o Alentejo e Portugal sempre foram estratégicos para a sua política de desenvolvimento territorial, e, com esse foco, os resultados estão hoje à vista: perto de 15.000 os alunos inscritos em aulas de português nos vários ciclos de ensino na Extremadura (a dificuldade do domínio da língua continua a ser um obstáculo para Extremenhos); o valor das exportações da Extremadura para Portugal vale hoje perto de 510 milhões de euros/ano, cerca de 30% do valor global anual; e o turista português representa já cerca de 10 % do total de turistas que visita aquela província.

A constatação destes e de outros resultados alcançados deveriam ser condição suficiente para que o Alentejo refletisse e encarasse de forma mais estratégica e abrangente o tema da cooperação com a Extremadura, mas adiante…

Para mim, a cooperação transfronteiriça é fundamentalmente um poderoso instrumento de aprendizagem mútua, na qual os atores envolvidos são simultaneamente alunos e professores, mas também colegas de carteira que, apesar da desconfiança inicial, aprendem a relacionar-se, a confiar, a discutir, pensar e construir projetos com benefícios comuns.

Conforme referi anteriormente, tenho tido a oportunidade de conhecer muitos e fantásticos empreendedores e projetos de empreendedorismo e inovação social na Extremadura.

A título de exemplo, refiro as Lanzaderas de Empleo, uma metodologia de apoio ao emprego, com taxas de inserção no mercado de trabalho muito interessantes (na ordem dos 50%), dinamizada pela Fundacion Santa Maria La Real e apoiadas financeiramente pela Fundacion Telefónica. Na Extremadura, onde a taxa de desemprego jovem rondava há bem pouco tempo os 50%, a Fundación Ciudadania, em Mérida, tem sido uma das principais dinamizadoras desta metodologia.

Outro bom exemplo, ao nível da investigação, da prática e da transferência de conhecimento, mas também na dinamização do ecossistema de empreendedorismo, é a Fundecyt, com sede em Badajoz. Uma fundação ligada à Universidad da Extremadura, na qual a I&D está ao serviço da comunidade, sendo hoje uma fonte de sólida de conhecimento e de network nesta área temática.

Outro exemplo, mais recente, mas que se diferencia por trabalhar especificamente ao nível de uma pequena comunidade local, é o Mainova Social Lab, promovido pela Fundacion Maimona, na pequena localidade com os Santos do mesmo nome. Um projeto experimental que em breve dará, estou certo, excelentes resultados. Um outro exemplo, que recentemente conheci, foi um singular projeto de regeneração urbana, de natureza privada – liderado por experientes empreendedores – no qual o design e a inovação social se cruzam. Falo do Espacio COnvento que, infelizmente , viu muito recentemente o seu percurso interrompido.

Por último, e ao nível de políticas públicas, o exemplo da própria Junta da Extremadura que desenvolveu o Programa de Emprendimiento y Inovacion Social en Extremadura capacitando o ecossistema e dinamizando uma Aceleradora de Projetos de Empreendedorismo Social. É assim dado um sinal claro aos empreendedores e às instituições locais que a administração pública conta com os processos de inovação social para a resolução de importantes problemas societais.

Estes são alguns exemplos de iniciativas de empreendedorismo e inovação social que estão a ocorrer na Extremadura e com os quais podemos aprender, através dos seus empreendedores, das suas práticas, dos seus sucessos e insucessos, sem preconceitos, dando resposta aos problemas negligenciados no nosso território.

E é esta a magia da cooperação transfronteiriça! A possibilidade que nos oferece de nos relacionarmos sob interesses comuns, de aprender e de ensinar, de sonhar e de concretizar, de traçar e de atingir objetivos e metas, de resolver problemas!

Juntos, neste âmbito temático, devemos acertar e acelerar o passo, que o tempo urge e o caminho é longo!

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